"Evita" encanta, mas não funciona como obra biográfica
Assistir “Evita”, pra mim, foi como ir ao teatro pela primeira vez novamente. Foi o primeiro musical dirigido por Jorge Takla que eu assisti e o primeiro com Daniel Boaventura. Ver Paula Capovilla nos palcos também foi uma coisa nova e, tirando o intragável “Cats”, foi a primeira obra de Andrew Lloyd Webber que eu vi executada num palco (pois é, eu não assisti “O Fantasma da Ópera”).
Logo de início, não fui com a cara de “Evita”, mas tudo mudou depois que eu fui à Coletiva de Imprensa do espetáculo, que além de mostrar um making-of bem animador, teve também um pocket show de Daniel, Paula e Fred Silveira (que interpreta Che Guevara). Isso sem contar o programa do espetáculo, extremamente bem feito, de cair o queixo! A partir daí, não via a hora de assistir!
“Evita - O Musical” conta a controversa história de Eva Perón, ex-Primeira-dama argentina, mulher nascida pobre no interior do País, que alcançou a fama mundial e depois morreu sendo considerada uma santa no seu País. A cena que abre o musical é a do enterro da protagonista e a partir daí, a história de Evita vai sendo contada em flashbacks, sempre com a presença de Che Guevara (Fred Silveira) como um contraponto a Evita, denegrindo a sua imagem, mostrando o “outro lado” das benfeitorias do Peronismo.

Fred Silveira, que tem no espetáculo um dos maiores de sua carreira, interpreta um Che Guevara bastante sarcástico e sagaz, diferente do Che de Antônio Banderas na versão cinematográfica da montagem. Apesar do bom trabalho de Paula Capovilla, tanto cantando (“Não Chores por Mim, Argentina”), quanto dançando (“Buenos Aires”), e também de Daniel Boaventura - apesar de ter um papel relativamente pequeno -, Fred é quem realmente carrega o musical nas costas, quebrando sempre a monotonia com sua grande voz e seus sorrisos ambíguos.
Se por um lado Takla acertou na escolha do elenco, por outro, errou feio criando para “Evita” uma cenografia extremamente pobre. Ele e o cenógrafo Paulo Corrêa, que juntos assinam os cenários do musical, optaram apenas por enormes paredões brancos que, durante todo o espetáculo, recebem projeções de fotos da vida de Evita - e outros bem toscas, como a de um arco-íris e cifrões, completamente desnecessárias. Em determinados momentos, essas projeções caem muito bem, situando o espectador na linha do tempo do espetáculo, o que é imprescindível num musical biográfico, mas na maioria das vezes, as projeções o engessam, deixando em segundo plano o que realmente acontece no palco.
O uso de projeções em musicais não é algo novo. Vários musicais da Broadway usam e abusam do recurso, e até algumas montagens brasileiras já tiveram cenários compostos quase que exclusivamente por projeções, como “Pernas Pro Ar”. Aliás, é impossível ver os paredões brancos de “Evita” e não lembrar automaticamente dos paredões branco-sujo do musical estrelado por Cláudia Raia; como dizem, “nada se cria, tudo se copia”.
“Evita” foi escrito por Andrew Lloyd Webber, um dos maiores nomes do teatro musical no mundo. Ele, aqui, optou por criar um musical sem nenhum diálogo. Todas as falas, salvo uma aqui e acolá, são cantadas. Infelizmente o único musical de Webber que eu assisti antes de “Evita” foi “Cats”, onde isso deu muito certo. Mas dessa vez, não deu. Acredito que, por ser um musical biográfico, o estilo de Webber é o que menos se encaixa no que pra mim seria o musical perfeito para falar sobre Evita.
Mesmo se você nunca ouviu falar de Eva Perón, é bem provável que você já tenha ouvido a clássica “Don’t Cry for Me, Argentina”. Escrita por Tim Rice, a música é para “Evita” o que “Memory” é para “Cats”: ultrapassou os limites do teatro e do cinema para virar um hit. Mais uma grande responsabilidade para Cláudio Botelho, que traduziu essa e todas as outras letras do musical. E o fez muito bem. As versões em português do espetáculo ficaram tão bonitas quanto as originais, ou até melhores, como no caso de “Oh What a Circus”.
No geral, o novo musical de Jorge Takla é “bonito”. Tem ótimos atores/cantores, lindas músicas, mas desenrola uma narrativa fraca, além de pecar nos cenários. Apesar de ser um musical biográfico, aconselho que para saber “...quem foi a Santa Evita, que arranca tantos histéricos gritos...”, você dê uma pesquisada na vida dela antes, para não sair do teatro com a sensação de tempo perdido.
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Eu também falei de "Evita" no Folhateen. Leia aqui.
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"Evita - O Musical”
Onde: Teatro Alfa (1.100 lugares) - Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, Santo Amaro, tel.(11)5693.4000
Quando: Quintas às 21h, Sextas às 21h30, Sábados às 17h e 21h e Domingos, às 16h e 20h (a partir de Junho, haverá apenas uma sessão aos domingos, às 18h) - até 29/06
Quanto: de R$20 a R$185
Classificação indicativa: 12 anos
Obrigado ao @RomuloAlmeida pela revisão!
