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Escolas: you're doing it SO wrong!

Post especial, publicado originalmente (em versão reduzida) no blog da Rae,MP

De longe, minha maior surpresa no âmbito escolar dos últimos anos foi quando, no começo deste ano, uma professora entrou na sala e disse: “Sou professora de uma nova disciplina aqui na escola chamada SIC (Sistemas de Informação e Comunicação) e eu quero que vocês criem um blog”. Na hora, eu quase chorei de emoção.

Melhor ainda foi quando meu novo professor de história disse que também usaria esse blog para compôr a nota de todos os alunos. Certo dia, lendo este blog aqui, ele me sugeriu nos comentários (sério!) que eu fizesse um post falando sobre como seria a escola perfeita pra mim. Então, tio Ernesto, vamos lá!

Hoje pela manhã, uma manchete na Folha de S. Paulo me deixou espantado: “Aluna põe lição no Facebook e é suspensa”. A matéria tratava sobre uma garota de 15 anos que criou um grupo no Facebook para compartilhar as respostas/soluções de todas as atividades passadas pelos professores do colégio carioca pH. A escola descobriu e pressionou a aluna a apagar a página e dizendo que, caso contrário, seus pais seriam presos por crime cibernético. Ela não apagou o Grupo e foi mandada para casa de táxi. Sua mãe, agora, está processando o colégio.

Obviamente a conduta da escola em pressionar e suspender a aluna foi completamente errada. Mas essa situação revela algo pior: o despreparo dos profissionais de educação em lidar com o uso da internet e das redes sociais no ambiente pedagógico. Se a aluna pode discutir um assunto com os colegas em um trabalho em grupo, por exemplo, porque não pode fazê-lo na internet?

Se alguém fosse transportado de um passado remoto para hoje, a única instituição que reconheceria seria a escola, onde quase nada mudou

Uma coisa é fato: o modelo atual de ensino está ultrapassado. Tão ultrapassado que até Rubinho Barrichelo ficaria com pena dele. As escolas como nós conhecemos hoje foram criadas no final do Século XVIII, começo do Século XIX, e seguiram exatamente o modelo de linha de produção criado na Revolução Industrial: crianças nascem, entram e saem da escola com a mesma idade, “aprendendo” sempre as mesmas coisas. O problema é que, ao contrário disso, cada um tem suas habilidades, seu modo e seu tempo de aplicá-las. E isso não é desenvolvido e aproveitado na escola.

Eu amo escrever. Enquanto estou aqui em frente ao computador digitando como um louco, tenho certeza que um amigo meu que se dá muito bem com matemática está procurando uma co-tangente X no arco trigonométrico para aquela lista de exercícios que o professor passou. Ou seja, enquanto eu sofro sozinho estudando para tirar nota mínima na prova de matemática, ele deve estar se preocupando em como fazer uma redação bacana em meio ao nervosismo da semana de provas - coisa com a qual eu, modéstia a parte, não me preocupo. Tudo isso por culpa não dos nossos professores, mas de todo um conjunto de fatores que trouxe e manteve o sistema de ensino nesse padrão.

Um exemplo perfeito de como as escolas deveriam ser é a Escola da Ponte, em Vila das Aves, Portugal. Considerada modelo mundial de educação, a instituição (que, à propósito, é pública) foge de todos os padrões de educação. Nada de alunos agrupados por faixas etárias em salas de aulas, aprendendo um conteúdo “enlatado”. Lá, a escola é dividida em espaços de trabalho que qualquer um dos alunos matriculados pode ter acesso para trabalharem em grupo - de acordo com os SEUS interesses-, para compartilhar e aprender.

Se existe planejamento do currículo escolar? É claro. Ele é definido pelos orientadores em conjunto com os alunos - a palavra “professor” não se aplica por lá. Também é assim que se estabelecem as regras de convivência e os direitos e deveres de alunos e orientadores. A Reunião de Pais e Mestres também sai de cena: na Escola da Ponte, as reuniões com os pais são mensais e não servem apenas para divulgar o desempenho dos filhos aos seus responsáveis, mas também para que estes acompanhem de perto e com frequência o andamento de toda a escola.

Se você, ao ler tudo isso, está pensando que no Brasil uma escola como essa é inviável, se enganou. No bairro do Butantã, aqui na capital paulista, a EMEF Desembargador Amorim Lima foi a primeira escola brasileira (e talvez a única) a fugir do padrão e adotar o sistema de educação da Escola da Ponte. E claro, deu e está dando certo até hoje. Infelizmente, não são todas as escolas que hoje são assim e, tenho certeza, vai demorar muito pra que isso aconteça. Talvez só meus netos possam estudar numa Escola da Ponte. Mas até lá, ficar de braços cruzados não é o melhor a se fazer. Pequenas iniciativas podem mudar o modo de como o aluno enxerga escola e consequentemente torná-la um ambiente agradável para discutir o mundo, fazer amizades e, principalmente, preparar um aluno - em todos os aspectos - para a vida adulta.

Não me sinto estimulado para ir à escola. Vou por obrigação. Escola, hoje, é só mais uma burocracia pela qual eu tenho que passar

No modelo atual de ensino, uma simples atividade em dupla torna a sala de aula um verdadeiro inferno para alunos e professores, pois vemos isso como uma oportunidade para conversar sobre coisas que não são pertinentes à aula. Mas, pense bem professor: se fossemos educados desde o começo para compartilhar conhecimento, e não ser apenas uma máquina receptoras de informação, isso não aconteceria.

O mesmo serve para a internet, a tecnologia e as redes sociais: elas já fazem parte da vida dos alunos e proibí-las no ambiente escolar é como dar murro em ponta de faca. O ideal seria incorporá-las à vida estudantil, educando os alunos a usar essas “novidades” da forma correta (nada de cartilhas pelo-amor-de-deus!) para que elas sejam mais um instrumento de aprendizagem e não um motivo de dispersão e brigas entre professor e aluno em sala de aula.

Uma escola que realmente prepara um aluno para o futuro é aquela que estimula o que ele tem de melhor, sua criatividade, e não a que o obriga a fazer coisas que ele não precisa. Para mudar, são necessários apenas um pouco de vontade e dedicação. Com essa base, o resto é consequência. Vamos mudar?

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Caso você queira se aprofundar mais no assunto, ou apenas ter uma ideia de como especialistas em educação veem essa situação, sugiro três links:

  • Este aqui, é uma pequena palestra do escritor britânico Ken Robinson que critica e aponta soluções para a educação atual (e que inspirou este post); 
  • Este outro é uma entrevista do educador e dirigente da Escola da Ponte ao Itaú Cultural, onde ele explica tudo sobre o projeto; 
  • Por fim, este último, onde o blog Foco em Gerações entrevistou dois estudantes universitários brasileiros para saber como eles veem as suas salas de aula.